Kirimurê, assim era chamada pelos antigos moradores Tupinambás, antes de ser rebatizada pelos portugueses como Baía de Todos os Santos (BTS) ao desembarcarem, em São Salvador, em 1 de novembro de 1501. No principio só existia kirimurê, expressão de vida e harmonia Tupinambá. Amada pela sua gente, a bela índia de água mansa e fértil que torneia o continente, tornava possível a existência humana. No tempo de Kirimurê, identidade Tupinambá, a vida fluía dialogando com a natureza em uma cumplicidade, onde era possível sentir-se parte dela. Uma comunhão entre rios, mar, homem, natureza e constelações. Assim a dinâmica da vida acontecia em uma percepção intuitiva, instintiva, racional e espiritual.
Com a chegada dos navios portugueses, a baía de Kirimurê tomaria novos rumos, deixava de pertencer aos Tupinambás e serviria aos interesses do estrangeiro europeu. Em 1549 Tomé de Souza chega a Salvador com a finalidade de colonizá-la e torná-la a rota mais importante para as Índias e África.
Segundo Araújo (2011) a cidade do Salvador foi o centro urbano deste sistema geo-histórico da Baía de Todos os Santos. Não é à toa que se consolidou na memória popular sua denominação como Cidade da Bahia. Nela se desenvolveram as atividades administrativas, eclesiásticas e de defesa, a construção e reparação de naus para a carreira das Índias, a construção das embarcações para a navegação dentro da baía e os serviços de apoio ao porto. Ela foi também o grande mercado deste núcleo colonial. Foi o mercado exportador e importador, foi o mercado de escravos, foi o mercado dos produtos de boca que alimentavam a cidade, as frotas e as populações do próprio recôncavo da Bahia. Em 1585 este complexo urbano estava em pleno funcionamento: o centro administrativo, os armazéns, os fortes, as 62 igrejas, as 3 abadias, os 3 estaleiros. A Bahia era a cidade do Rei, a corte do Brasil. Nela habitavam o bispo, o governador geral, o ouvidor geral e demais magistrados e funcionários reais. Bem abastecida de produtos alimentares, por ela exportava-se o melhor açúcar de toda a costa do Brasil e as mais variadas e numerosas madeiras e plantas aromáticas.
Assim foi constituindo Salvador, capital do estado da Bahia que está edificada sobre uma falha geológica que a divide em duas regiões: a cidade alta e cidade baixa. No inicio da colonização portuguesa a cidade baixa era apenas uma faixa de terra muito estreita e sem alinhamento reto e onde funcionava o centro dos negócios da cidade (SANTOS 2007). Às margens da Baía de Todos os Santos, a cidade baixa prolonga uma faixa de terra formando a Península de Itapagipe ou Pedra que avança para o mar na língua Tupinambá.
A formação geológica da Península Itapagipana, na Cidade Baixa, é ligeiramente côncava, onde parcialmente se fecha em uma pequena baía A faixa continental adjacente é constituída por um antigo pontal arenoso, formado entre 3.000 e 3.600 anos AP (Vilas Boas & Nascimento 1979), no qual afloram sedimentos arenosos inconsolidados, de composição essencialmente quartzosa. (VILAS BOAS, BITTENCOURT, 1992).
O espaço geológico que foi se moldando ao gosto da natureza fez de Itapagipe um lugar com grande diversidade ecológica tais como, cobertura vegetal, mangue, dunas e praias. A baía de Itapagipe, é constituída por um ecossistema marinho rico em bentos, algas, mariscos, crustáceos e peixes.
Sendo a BTS um entreposto de grande importância para a America do Sul, era necessário pensar estratégias a fim de defendê-la de ameaças externas. Havia uma preocupação especial sobre a baia de Itapagipe. Percebendo sua importância de guarnecer o litoral naqueles arredores os portugueses construíram no século XVII fortificações como a Torre de São Tiago “Lagartixa” em Água de meninos, a Bateria da Jequitaia, a Bateria da Ribeira das Naus e ainda o fortim de Monserrate na Boa Viagem. Esses fortes tinham como função primordial criar empecilho à progressão de tropas inimigas que desembarcavam na península itapagipana em direção à cidade.
Discretamente a topologia da Cidade Baixa em direção a Península Itapagipana vai sendo modificada. Os jesuítas que tinham recebido uma sesmaria em Água de Meninos aterram uma parte do mar em 1715 para a construção do convento. Avançam ainda mais em 1737 com o cais próprio. (VASCONCELOS, 2002).
A expansão da ocupação na Cidade Baixa foi possível devido aos diversos aterros sobre o mar ali realizados entre 1715 e 1777, em 1785, 1798 e 1822. As intervenções mais importantes na freguesia da Conceição da Praia começaram a ser executadas em fins do século XVIII em função da modernização do Porto (PINHEIRO, 2002; VASCONCELOS, 2002 apud SANTOS, 2007 ).
Impulsionada pelo processo de modernização em meados do século XIX, várias intervenções públicas foram feitas na cidade tais como: transporte coletivo, iluminação a gás carbônico, calçamento e encanamento das ruas e realização de um aterro da Ribeira das Naus até o Cais Novo. (PEÑA, 1994 apud SANTOS, 2007).
Segundo Vasconcelos, 2002 apud Santos, 2007, havia uma preocupação com a modernização da cidade baixa por ser o primeiro ponto a ser visto da cidade por quem chega por mar e seu centro comercial. No ano de 1866 surge a primeira linha de bonde à tração animal da cidade, ligando Água de Meninos ao Bonfim. Em 1868 a ligação é estendida à Conceição da Praia. (PINHEIRO, 2002; VASCONCELOS, 2002 apud SANTOS, 2007).
No fim do século XIX ocorreu uma intensa ocupação em Itapagipe com a industrialização no bairro da Boa Viagem. A primeira fábrica a se instalar em Salvador foi a Companhia Empório Industrial do Norte, pelo pioneiro Luis Tarquínio. A Península foi um local escolhido para acomodar as fábricas e atender o desenvolvimento industrial baiano. Entre 1855 a 1870 várias fábricas montaram suas instalações nos bairros de Água de meninos, Monte Serrat e Penha, na Ribeira, entre elas a de máquinas para engenho Cameron & Smith, a de cigarros Leite & Alves e a de chapéus Bastos & Cia (VASCONCELOS 2002).
Na década de 40, no século XX, o fenômeno se repete e inúmeras fábricas ( cigarro, chocolate, algodão, tecido, óleo de mamona, café, sabão, refrigerante, entre outras) se instalaram às margens da baia de Itapagipe. Os resíduos industriais foram de grande impacto ao ecossistema contaminando a biota marinha com metais pesados como mercúrio, chumbo, cobre, entre outros, lançados ao mar da baia além da poluição atmosférica pelos gases lançados pelas chaminés das fábricas.
Segundo Araujo e tal, Os metais pesados são preocupantes por causa de seus efeitos tóxicos na vida aquática e seu grande potencial em contaminar as águas subterrâneas. O Cobre, o Chumbo e o Zinco são poluentes predominantemente encontrados no runoff urbano. As altas concentrações de metais pesados podem se acumular biologicamente em peixes e moluscos e causam impactos negativos na bacia hidrográfica afetada.
O desenvolvimento industrial atraiu uma massa humana em busca de trabalho e o adensamento formou a periferia da época. As famílias de baixa renda ocuparam áreas de mangue entre a Enseada dos Tainheiros e Massaranduba. As moradias avançaram o mar, a demanda por novas moradias e o alto custo da terra urbana levaram os trabalhadores situados nas menores faixas de renda – vinculados ao setor informal da economia - a invadir o mar em busca de alternativas.(SANTOS e tal, 2010).
O mangue atua como berçário da matéria orgânica para os estuários. O valor ecológico e econômico se caracteriza pela biodiversidade de espécies como crustáceos, peixes, moluscos, aves e animais que encontram no ambiente um local adequado para reprodução, criação e abrigo.
Nos anos 40 diversos aterros foram realizados na Massaranduba. A população carente, em busca de emprego nas indústrias, improvisavam palafitas. Nas décadas seguintes a ocupação se intensificou. O manguezal aos poucos foi cedendo para o lixo que vinha das diversas partes da cidade. (PMS: VIA MAGIA, 2006).
As palafitas têm um único pavimento e são utilizados diversos materiais na construção como o papelão, a madeira, o plástico, blocos com ou sem reboco, telhas de fibrocimento. Os resíduos sólidos e líquidos são lançados na água ou jogados no ambiente, pois não há coleta de lixo ou saneamento.
Estas áreas se caracterizam pela presença de invasões relativamente recentes em manguezais ou áreas de brejo, que alteram sua qualidade e a reprodução de ciclos reprodutivos vitais, comprometendo um ambiente altamente produtivo de alimentos. Onde se agravam problemas de enchentes nos períodos chuvosos, pois dificultam o escoamento de drenos naturais (PMS, SETIN 2010)
De acordo com Santos e tal, 2010, atualmente a Peninsula Itapagipana possui uma área de 9,979km² e população de 159.050 habitantes, correspondente a 6,51% da população de Salvador. Os bairros que a compõem são: Boa Viagem, Bonfim, Calçada, Caminho de Areia, Jardim Cruzeiro/Vila Ruy Barbosa, Mangueira, Mares, Massaranduba, Monte Serrat, Ribeira, Roma e Uruguai.
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| WEILL, Carlos Augusto. "Mappa Topographica da Cidade de Salvador e seus suburbios.” Salvador (Bahia): Ferd. Glocker, 1851. |
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| LINHA DE BONDE NA AVENIDA DENDEZEIROS / BOM FIM 1920 |
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| Alagados/ 1940 Fonte: Google |
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| Vista superior de Alagados /1980 fonte: CONDER |



